A nossa amiga Rita – que dá aulas de surf em Sagres e que já usámos como exemplo antes (obrigada, Rita!) – partilhou, no outro dia, algo muito interessante sobre o famoso e muito atual tema da fadiga digital, enquanto tomávamos um café e resolvíamos os problemas do mundo (algo tão tipicamente português!). Ela contou-nos que tinha acabado de passar duas horas a responder a DMs do Instagram, mensagens no WhatsApp, comentários do Facebook e e-mails, tudo isso antes ainda de tomar o seu café matinal – “Sinto que preciso de férias e ainda nem comecei a trabalhar”.

 

Bem-vindo(a) a 2025, onde estar presente digitalmente se transformou, sem sabermos muito bem como, de uma oportunidade numa obrigação. E, francamente? Fadiga digital? Estamos é todos exaustos.

 

A armadilha do “sempre ligado(a)”

Aqui está uma estatística que nos deveria fazer parar para pensar: a Geração Z, aquela geração que assumimos viver e respirar o mundo digital, passa agora uma média de 7,2 horas por dia online. Mas eis o mais surpreendente: 73% deles afirmam sentir-se digitalmente exaustos (!). As pesquisas por “ideias para detox digital” (ideias para desintoxicação digital) aumentaram mais de 70% este ano, o que significa que até mesmo os nativos digitais estão a precisar de ajuda.

Não finjamos que este é só um “problema dos jovens”. Um estudo recente revelou que 84% dos trabalhadores em todo o mundo relatam fadiga com as ferramentas digitais. Isto não é (ou já não é) um problema de um nicho específico, é praticamente de toda a gente.

E em Portugal? Bem, conseguimos distinguir-nos por ter um dos riscos de burnout (esgotamento) mais elevados da Europa. “Parabéns a nós!” (e isto é sarcasmo, caso não tenha sido óbvio!).

 

O paradoxo dos negócios

É aqui que as coisas se tornam interessantes para nós que gerimos negócios. Passámos anos (especialmente desde março de 2020) a ouvir que DEVEMOS estar online, DEVEMOS interagir nas redes sociais, DEVEMOS responder imediatamente, DEVEMOS criar conteúdo constantemente. E acreditámos nisso. Porque, para ser justo, em parte é verdade.

No entanto, num determinado momento, “estar presente” tornou-se “ser incessante”. As empresas começaram a bombardear os clientes com notificações, e-mails, anúncios de remarketing, chatbots e “mensagens personalizadas” que soam tão pessoais quanto um recibo de supermercado. Automatizámos tudo o que podíamos, muitas vezes adicionando ferramentas para resolver problemas criados por outras ferramentas. É como se tivéssemos construído uma torre de Jenga digital e estivéssemos todos com medo de tirar um único bloco.

Enquanto isso, as nossas equipas estão a afogar-se. Aquela nova ferramenta sofisticada de IA que deveria “libertar tempo”, apenas acrescentou mais uma plataforma para verificar, mais um login para memorizar, mais uma notificação para ignorar.

O governo português reconheceu isto e lançou iniciativas como o “Emprego+Digital 2025” para melhorar as competências da mão-de-obra nacional. Espetacular! Precisamos disso. Mas (e há sempre um mas), a digitalização sem consideração pelo bem-estar é, na verdade, apenas o trocar de um problema por outro.

 

O que é realmente a fadiga digital

Deixe-nos pintar-lhe um cenário: acorda com 47 notificações; verifica os seus e-mails durante o pequeno-almoço (provavelmente não devia, mas quem é que queremos enganar?); abre o seu portátil e há três plataformas de mensagens diferentes a piscar, cada uma com o seu próprio ponto vermelho muito urgente. O seu gestor de redes sociais está a pressioná-lo(a) sobre as publicações de hoje; o seu painel de estatísticas está a gritar que as interações ontem baixaram 3%; o seu telemóvel vibra – alguém deixou uma avaliação e nem sequer é boa.

São 9h15.

Isto é fadiga digital.

É a sensação avassaladora de que está sempre atrasado(a), sempre a reagir, nunca totalmente em controlo. É a ansiedade das notificações; é o cansaço de tomar decisões por estar constantemente a alternar entre plataformas e tarefas. É a sensação angustiante de que, se parar (mesmo que seja só por um momento), vai perder algo importante.

Para as empresas, isto manifesta-se em conteúdos feitos à pressa, mensagens genéricas e equipas que estão fisicamente presentes, mas mentalmente desligadas. Para os indivíduos, é aquele momento em que percebemos que estamos a fazer scroll há 20 minutos e não nos lembramos de nada do que vimos.

 

O custo de estar “sempre ligado”

Falemos então agora sobre o que é que isso realmente nos custa, porque (alerta para spoiler) não é apenas a nossa sanidade mental.

 

Nas empresas, a fadiga digital leva a:

– Retornos decrescentes – mais conteúdo não significa mais envolvimento quando o seu público está saturado ou assoberbado;

– Esgotamento da equipa – alta rotatividade, aumento das baixas por doença, redução da criatividade;

– Processo de tomada de decisões inadequado – quando todos estão exaustos, cometem-se erros;

– Desperdício de recursos – pagar por ferramentas e plataformas que aumentam a complexidade sem acrescentar valor.

 

Nos indivíduos (os seus clientes, na verdade) a fadiga digital leva a:

– Cegueira aos banners – aprendem a ignorar os seus anúncios cuidadosamente elaborados;

– Fadiga de cancelamento de subscrição – simplesmente marcam-no como spam em vez de cancelarem a subscrição corretamente;

– Paralisia de decisão – demasiadas opções, demasiada informação e, por isso, escolhem… nada;

– Ressentimento em relação à marca – sim, eles podem realmente começar a não gostar de si porque não os deixa em paz.

 

Então, o que fazer a este respeito?

Certo, agora que já conseguimos deprimir toda a gente (desculpem!), vamos falar de soluções. Porque, apesar do que possa parecer, não somos completamente impotentes.

 

Para as empresas: qualidade em vez de quantidade (finalmente!)

– Pare de publicar só por publicar – nós sabemos, nós sabemos, todos dizem que tem de fazer posts diariamente, manter a consistência, alimentar esses sempre famintos deuses dos algoritmos. Mas e se lhe dissessemos que uma publicação genuinamente útil e bem elaborada por semana lhe serve melhor do que sete posts apressados e “facilmente esquecíveis”?

– Faça uma auditoria aos seus pontos de contacto digitais – a sério, faça isso agora. Quantas vezes contacta os seus clientes por semana? Através de quantos canais? Todas essas vezes/canais são necessários? Recentemente, trabalhámos com uma agência imobiliária local que enviava três e-mails por semana, publicava duas vezes por dia em quatro redes sociais e mostrava anúncios de remarketing constantemente. Reduzimos o output deles em 60% e adivinhe? As suas interações aumentaram! Porquê? Simples, porque os utilizadores tiveram efetivamente tempo para reparar e se interessar pelo que eles estavam a dizer.

– Respeite o tempo e a atenção das pessoas – isto devia ser óbvio, mas aparentemente precisa de ser dito: a atenção dos seus clientes não é um recurso infinito. Trate-a como o bem precioso que é. Se está a pedir a alguém para ler o seu e-mail, ver o seu vídeo ou interagir com o seu conteúdo, certifique-se de que ele vale mesmo a pena.

– Invista numa estratégia adequada, não apenas em mais ferramentas – antes de subscrever mais uma plataforma, pergunte-se: “Isto vai resolver um problema concreto ou estou apenas à espera que a tecnologia resolva magicamente algo que requer pensamento estratégico real?” (bem sei que estamos a ser duras e ríspidas, e pedimos desculpa, mas alguém tinha de o dizer).

– Treine adequadamente a sua equipa – apenas 29% das empresas utilizam de forma eficaz a IA para reduzir a carga de trabalho, em vez de a aumentar. De uma forma geral, o problema não é a tecnologia, mas sim o facto de fornecermos ferramentas às pessoas sem formação adequada, integração ou consideração sobre como elas realmente as utilizarão.

– Implemente medidas reais de bem-estar – e não, uma cesta de frutas na zona do café não conta! Estamos a falar de limites claros em torno das comunicações de trabalho, apoio genuíno à saúde mental, incentivo (não apenas permissão) a folgas e reconhecimento de que a produtividade não é medida em “horas online”.

 

Para todos: recuperar o controlo

– Agende algum tempo para uma desintoxicação digital – e sim, queremos mesmo dizer AGENDAR. Marque-o no seu calendário ou na sua agenda! Trate-o como se fosse uma reunião com o seu cliente mais importante (você mesmo). Comece aos poucos: mesmo só uma hora sem telemóvel pode fazer uma enorme diferença.

– Limite impiedosamente as notificações – precisa mesmo de saber que alguém gostou da sua publicação no exato momento em que isso acontece? Garantimos-lhe que o mundo não vai acabar se verificar as suas notificações duas vezes por dia em vez de duas vezes por minuto.

– Aceite e use a palavra “não” – não, não precisa de estar em todas as plataformas. Não, não precisa de responder imediatamente. Não, não precisa de participar em todos os eventos virtuais. Não (simplesmente não) é uma frase completa e muito subutilizada na nossa sociedade.

– Consuma conscientemente – antes de abrir uma aplicação, pergunte-se o que espera alcançar. Está a verificar algo específico ou apenas a passar tempo? Porque uma coisa tem um propósito; a outra é um hábito que provavelmente não lhe traz nenhum benefício.

– Proteja as suas manhãs – esta é uma questão pessoal e tornámo-nos quase religiosas em relação a isto: a primeira hora do nosso dia é livre de ecrãs. Sem e-mails, sem notícias, sem redes sociais; apenas um bom café, talvez uma volta sem destino certo e os nossos próprios pensamentos. Revolucionário, nós sabemos!!!

 

A vantagem do Algarve

É neste aspeto que viver no Algarve nos dá uma vantagem. Estamos rodeados por praias, serras e um estilo de vida que (quando não estamos colados aos ecrãs) promove naturalmente o equilíbrio. Temos uma cultura que valoriza as relações, as conversas cara-a-cara e o sentarmo-nos para comer juntos, sem estar a verificar os telemóveis a cada cinco minutos.

Vamos aproveitar isso! Vamos lembrar-nos que, antes de termos conectividade digital infinita, as empresas também prosperavam construindo relações reais: o mundo digital deve melhorar isto, não substituí-lo.

Algumas das empresas mais bem-sucedidas que conhecemos aqui adotaram aquilo a que se chama de “digital com limites”: sim, elas estão online; usam as redes sociais; investem na sua presença digital. Mas também desligam os seus computadores às 19h00. Não entram em pânico se um comentário fica sem resposta durante algumas horas e dão prioridade à substância em vez de à frequência.

E sabem que mais? Os seus clientes respeitam-nas por isso. As suas equipas são mais felizes e os seus negócios são sustentáveis, não apenas no sentido ambiental que agora está muito na moda, mas no sentido de “podemos realmente continuar a fazer isto sem que todos tenhamos um esgotamento”.

 

A big picture ou o panorama geral

Eis a verdade incómoda: a fadiga digital não é um problema tecnológico, mas sim um problema humano que a tecnologia amplificou.

Pegámos em ferramentas que se destinavam a facilitar-nos a vida e transformámo-las numa nova forma de obrigação. Confundimos estar ocupado com ser produtivo. Confundimos disponibilidade constante com bom serviço. E, de alguma forma, convencemo-nos de que a resposta para a sobrecarga digital é… mais digital.

É de loucos, na verdade!

Mas aqui está a parte esperançosa da coisa (não podemos dedicar-nos só a deprimir as pessoas, não é?!): nós podemos mudar isto. Não ao abandonar completamente o marketing digital (não é preciso ser tão dramático; para além do mais, uma pessoa tem de comer!) mas ao abordá-lo de forma mais ponderada, mais humana e – atrevemo-nos a dizer? – mais egoísta.

Sim, egoisticamente! Porque quando protege o seu próprio tempo e atenção, começa naturalmente a respeitar os dos outros. Quando deixa de tentar estar em todo o lado o tempo todo, pode realmente estar em algum lugar de forma significativa. E quando se concentra em criar valor em vez de volume, todos ganham.

 

Seguir em frente

Então, qual é a lição a tirar daqui? (porque sabemos que está ocupado(a) e provavelmente tem 17 outros separadores abertos enquanto lê isto!)

– Para as empresas – a sua presença digital deve servir os seus objetivos e as suas pessoas, e não o contrário. Se a sua estratégia digital está a tornar todos infelizes, não é uma boa estratégia, independentemente daquilo que os “especialistas” dizem que “deve” fazer.

– Para todos os outros – vocês têm mais poder do que aquilo que pensam. Podem escolher onde dedicar a vossa atenção. Podem estabelecer limites e podem exigir mais das empresas que tentam chegar até vós.

 

E talvez, só talvez, possamos todos concordar em dar uns aos outros alguma folga (ou um desconto, se preferirem). Aceitar que, às vezes, ser bom o suficiente é realmente bom o suficiente. Lembrarmo-nos que somos humanos a tentar usar ferramentas, e não ferramentas a tentar ser humanos (esperemos que esse dia nunca chegue…).

 

E agora, se nos dão licença, vamos fechar os nossos computadores, pôr os nossos telemóveis no silêncio e vamos ficar a olhar para a Ria Formosa durante algum tempo. Recomendamos vivamente que faça qualquer coisa do género.

 

P.S. – E sim, reconhecemos a ironia de escrever algumas 2.000 palavras sobre fadiga digital e depois publicá-las online. Mas, em nossa defesa, se uma única pessoa ler isto e decidir fazer uma pausa para almoçar sem verificar o telemóvel, consideramos isso uma vitória! 

Logotipo da Clarity que é uma agência de marketing digital
Umas raparigas que adoram trabalhar juntas na área do marketing digital e que também escrevem umas coisas! Se o que leu faz sentido para si, e se a sua empresa precisa de estratégias reais de marketing digital para alcançar e manter uma posição de sucesso online, fale connosco!